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Intoxicação Alimentar por substâncias químicas

A intoxicação alimentar por substâncias químicas é o resultado da ingestão de plantas ou de animais que contêm veneno.
A intoxicação por cogumelos (fungos venenosos) pode resultar da ingestão de qualquer das muitas espécies existentes. O potencial de intoxicação pode variar dentro das mesmas espécies, em diferentes momentos da época de crescimento e conforme se cozinham. Na intoxicação provocada por espécies de Inocybe e por algumas espécies de Clitocybe, a substância perigosa é a muscarina. Os sintomas, que começam poucos minutos depois da ingestão ou, inclusivamente, até duas horas mais tarde, podem consistir no aumento do lacrimejar, da salivação, na contracção das pupilas e na sudação, bem como em vómitos, cólicas, diarreia e perda do equilíbrio. Por vezes, pode provocar confusão, coma e convulsões. Com o tratamento apropriado, o doente recupera em 24 horas, embora possa morrer em poucas horas.
Na intoxicação provocada pela ingestão de Amanita phalloides e de espécies de cogumelos do género, os sintomas começam entre 6 e 24 horas depois. Os afectados desenvolvem sintomas intestinais semelhantes aos da intoxicação pela muscarina e a lesão renal pode diminuir ou mesmo eliminar o débito de urina. É frequente a icterícia, consequência da lesão hepática, e esta surge em 2 ou 3 dias. Às vezes, os sintomas desaparecem por si só, mas cerca de metade dos que sofrem uma intoxicação por Amanita phalloides morrem ao fim de 5 a 8 dias.
A intoxicação por plantas e arbustos pode resultar da ingestão das suas folhas e frutos, quer sejam silvestres ou domésticos. As raízes ou os rebentos verdes que crescem debaixo do solo e que contêm solanina podem provocar náuseas ligeiras, vómitos, diarreia e fraqueza. As favas podem provocar a rotura dos glóbulos vermelhos em pessoas geneticamente susceptíveis (favismo). A intoxicação pela cravagem do centeio acontece ao ingerir cereais contaminados pelo fungo Claviceps purpurea. As frutas da árvore de Koenig provocam a doença do vómito da Jamaica.
A intoxicação por produtos do mar pode ser provocada por peixes ou mariscos. Normalmente, a intoxicação por peixes resulta de uma de três toxinas: ciguatera, tetrodotoxina ou histamina. A intoxicação por ciguatera pode ocorrer depois de comer quaisquer das mais de 400 espécies de peixes dos recifes tropicais da Florida, das Antilhas ou do Pacífico.
A toxina é produzida por determinados dinoflagelados (organismos marinhos microscópicos que servem de alimento aos peixes, que se acumulam na sua carne). Os peixes grandes e velhos são mais tóxicos que os pequenos e jovens. O sabor do peixe não se altera. Os processos que se utilizam actualmente não destruem a toxina. Os sintomas podem começar 2 a 8 horas depois da ingestão do peixe. As cólicas abdominais, as náuseas, os vómitos e a diarreia durante entre 6 e 17 horas. Os sintomas mais tardios podem incluir comichões (prurido), sensação de formigueiro, cefaleia (dor de cabeça), dores musculares, inversão das sensações de frio e de calor (perturbações térmicas) e dor facial. Ao fim de vários meses, as perturbações térmicas podem tornar-se incapacitantes.
Os sintomas da intoxicação pela tetrodotoxina do peixe globo, que se encontra sobretudo nos mares do Japão, são semelhantes aos da intoxicação por ciguatera. A morte pode ser provocada pela paralisia dos músculos respiratórios.
A intoxicação pela histamina procedente de peixes como a cavala, o atum e a albacora (mahi-mahi), acontece quando os tecidos destes peixes se decompõem depois da sua captura e libertam altos teores de histamina. Depois da sua ingestão, a histamina provoca uma vermelhidão facial immediata. Também pode provocar náuseas, vómitos, dor de estômago e urticária poucos minutos depois de se ter comido o peixe. Os sintomas normalmente duram menos de 24 horas.
De Junho a Outubro, sobretudo nas costas do Pacífico e da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, os mariscos como os mexilhões, as amêijoas, as ostras e as vieiras podem ingerir certos dinoflagelados venenosos. Estes dinoflagelados em determinados momentos encontram-se nos oceanos num número tão elevado que a água adquire um aspecto avermelhado, conhecido como maré vermelha. Produzem uma toxina que afecta os nervos (tais toxinas denominam-se neurotoxinas). A toxina que produz a chamada intoxicação paralítica por mariscos continua activa, inclusivamente depois de se ter cozido a comida. O primeiro sintoma, uma sensação de formigueiro à volta da boca, começa entre 5 e 30 minutos depois de comer. O que acontece depois são náuseas, vómitos e cólicas abdominais. Cerca de 25 % das pessoas sofrem de fraqueza muscular conforme passam as horas, o que pode progredir para uma paralisia dos braços e das pernas. Por vezes, a fraqueza dos músculos respiratórios pode ser tão grave que pode provocar a morte.
A intoxicação por contaminantes pode afectar pessoas que tenham ingerido frutas sem as lavar e vegetais pulverizados com arsénico, chumbo ou insecticidas orgânicos ou que tenham ingerido líquidos ácidos servidos em recipientes de chumbo vidrado ou alimentos armazenados em recipientes revestidos de cádmio. 
Tratamento
A menos que a pessoa afectada tenha tido vómitos violentos ou diarreia, ou que os sintomas não tenham aparecido senão várias horas depois da ingestão, deve-se tentar eliminar o veneno utilizando um qualquer método de esvaziar o estômago (lavagem gástrica). Pode-se usar medicamentos como o xarope de ipecacuanha para provocar o vómito e administrar um laxante para despejar o intestino. Se as náuseas e os vómitos continuarem, administram-se líquidos endovenosos que contenham sais e dextrose para corrigir a desidratação e qualquer desequilíbrio ácido ou alcalino. Se as cólicas forem intensas, pode ser necessária uma medicação para a dor. Por vezes, é necessário providenciar respiração artificial e cuidados intensivos de enfermaria. Qualquer pessoa que adoeça depois de comer um cogumelo que não identifica deve provocar o vómito de imediato e guardá-lo para que seja analisado no laboratório, pois as diferentes espécies requerem tratamentos diferentes. Na intoxicação pela muscarina é administrada atropina. No caso duma pessoa intoxicada por Amanita phalloides, uma dieta rica em hidratos de carbono e a administração endovenosa de dextrose e de cloreto de sódio podem ajudar a corrigir os baixos valores de açúcar no sangue (hipoglicemia) provocados por uma grave lesão hepática. Para tratar a intoxicação grave por ciguatera por vezes é necessário manitol, um fármaco de administração endovenosa. Os bloqueadores da histamina (anti-histamínicos) podem ser eficazes na redução dos sintomas da intoxicação por histamina de origem marinha.


Fonte: Instituto Camões