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Tratamento e Prevenção das Intercorrências Nutricionais na Gravidez

A gestação é um fenómeno fisiológico que acarreta uma série de modificações no organismo materno, com a finalidade de garantir o crescimento fetal, proteger e possibilitar a recuperação da puérpera e garantir a saúde do recém-nascido. Essas modificações se fazem evidentes nos aparelhos cardio-circulatório, digestivo, respiratório, ósteo-articular, além de modificações metabólicas, endócrinas, hematológicas e mamárias, o que exige uma maior demanda de nutrientes.
Vários fatores determinam o progresso e o resultado de uma gravidez, inclusive o estado nutricional da mãe antes de engravidar. Alguns fatores nutricionais podem afetar o peso ao nascimento do recém-nascido, o risco de defeitos do tubo neural e a síndrome alcoólica fetal. O peso ao nascimento está altamente relacionado com a mortalidade e morbidade infantil (KRAUSE, 2005). Os recém-nascidos que são pequenos para a idade gestacional (PIG) apresentam maior risco de conseqüências adversas para a saúde a longo prazo, como hipertensão, obesidade e doença cardiovascular (BARKER, 1995).
Sendo assim, o estado nutricional da mulher, antes e durante a gestação, está associado ao desenvolvimento adequado do feto (GOULART; BRICARELLO, 2000). Uma alimentação deficiente pode provocar anemia, hemorragias, ganho de peso inadequado ao concepto, parto prematuro, rotura prematura de membranas, entre outros (NASCIMENTO; SOUZA, 2002; BRICARELLO, 2000). Para o feto, os déficits nutricionais na gestante acarretam um maior risco de déficit do desenvolvimento neurocognitivo, malformações congênitas, prematuridade, ganho de peso e/ou comprimento insuficientes e baixo peso ao nascer (GOULART; BRICARELLO, 2000). A desnutrição protéico-calórica e as deficiências de ferro, iodo, vitamina A e folato, são os principais problemas nutricionais na gestação e, por isso, devem ser avaliados com base no impacto que exercem não somente no organismo da gestante, como também na do feto/recém-nascido (SILVA et al, 2007; GOULART; BRICARELLO, 2000).
Intercorrências da Gravidez e suas Implicações Dietéticas
Náuseas e Vômito
Comum durante o primeiro trimestre de gravidez, a náusea normalmente se resolve entre a décima terceira à décima quarta semana de gestação, em geral tão espontaneamente quanto se desenvolveu (KRAUSE, 2005).
A forma comum de náusea do começo de gravidez pode melhorar por medidas dietéticas simples, entre ela, o fracionamento adequado da dieta (5 a 6 refeições diárias), sendo que essa medida é fundamental para aliviar a sensação de náuseas, refeições constituídas por alimentos a base de carboidratos, como cereais cozidos, torradas, biscoitos simples, batata cozida e a restrição de líquidos de 1 a 2 horas antes e após as refeições, ajudam a aliviar as náuseas e vômitos freqüentes neste período.
Vitamina B6
Esta vitamina possui papel importante devido à sua participação na formação de substâncias importantes ao organismo. Além disso, a vitamina B6 vem sido bastante utilizada durante a gestação como forma de tratamento de náuseas e vômitos, apesar de ainda não conhecer-se o mecanismo através do qual ocorre o alívio destes sintomas (JEWEL; YOUNG, 2002). Fontes: A vitamina B6 é encontrada no fígado, peixes, frango, porco, ovos, amendoins e soja.
Azia
O refluxo gastroesofágico é uma queixa comum durante a última fase da gravidez e com freqüência ocorre à noite (KRAUSE, 2005). Na maioria dos casos, esse sintoma ocorre devido à pressão exercida pelo útero aumentado sobre os intestinos e estômago, que, em combinação com o relaxamento do esfíncter esofágico, pode resultar em regurgitação do conteúdo do estômago dentro do esôfago (KRAUSE, 2005).
Para evitar a azia deve-se ingerir os alimentos em pequenas porções e mastigar lentamente. O tratamento nutricional está ainda relacionado à prática de dieta fracionada e à diminuição de alimentos gordurosos, frituras, café, chá, pimenta e condimentos em geral (GOULART; BRICARELLO, 2000). O fato de não se deitar após as refeições e elevar a cabeceira da cama também são positivas para evitar o problema.
Constipação e Hemorróidas
Muitas gestantes apresentam constipação intestinal e ela ocorre em geral no último trimestre da gravidez (SOBRADO et al, 2002). A etiologia desta constipação incluem motilidade intestinal diminuída, inatividade física e a pressão exercida no intestino pelo útero aumentado (KRAUSE, 2005). Esse quadro predispõem a gestante a hemorróida (SOBRADO et al, 2002). Para amenizar o problema, a gestante deve incluir na dieta frutas frescas, cereais integrais e hortaliças cruas. O consumo adequado de água também é muito importante, e por isso sugere-se um consumo médio de dois litros por dia.
Pica
A pica (consumo de substâncias com pouco valor nutricional) da gravidez engloba geofagia (o consumo de terra ou barro) ou amilofagia (consumo de substâncias amiláceas não nutritivas como goma de lavanderia). Substâncias alimentares relacionadas à pica da gravidez envolvem gelo, papel, fósforo queimados, pedra ou cascalho, carvão, fuligem, cinzas de cigarro, tabletes de antiácido, leite de magnésia, bicarbonato de sódio e borras de café (KRAUSE, 2005). Pouco se sabe a respeito da etiologia da pica, embora tenham sido apresentadas diversas teorias. Uma das teorias supõe que trata-se de uma deficiência de nutrientes essenciais, como o ferro, levando assim à ingestão de substâncias não alimentares que contenham esses nutrientes (terra, por exemplo), o que parece ser resolvido após a reposição do nutriente (RAINVILLE, 1998). Essas formas de pica são importantes para a compreensão dos hábitos alimentares e do estado nutricional da paciente e pode indicar deficiências nutricionais em potencial.
Referências
BARKER, D.J.P. Fetal origins of coronary heart disease. BMJ, v 311, n 171, 1995.
GOULART, R.M.M., BRICARELLO, L.P. Aspectos nutricionais na gravidez. Rev Bras Med, v 57, p 12-17, 2000.
JEWEL, I.D., YOUNG, G. Interventions for nausea and vomiting in early pregnancy. Cochrane Database Syst Rev, v 1, p 145, 2002.
KRAUSE. Alimentos, nutrição & dietoterapia.11 ed. São Paulo. Roca. 2005.
NASCIMENTO, A., SOUZA, S. B. Avaliação da dieta de gestante com sobrepeso.Rev. Nutri, v 15, n2, p173-79, 2002.
RAINVILLE, A. Pica practices of pregnant women are associated with lower maternal hemoglobin level at delivery. J Am Diet Assoc, v 98, p 293, 1998.
SILVA, L.S.V., THIAPÓ, A.P., SOUZA, G.G., SAUNDERS, C., RAMALHO, A. Micronutrientes na gestação e lactação. Rev Bras Saúde Matern Infant, v 7, n 3, p 237-44, 2007.
Fonte:RGNutri

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